Qual o papel do sexo no relacionamento abusivo?

O papel do sexo no relacionamento abusivo é um assunto de extrema importância para ser debatido e acolhido. Mas sabemos que é um conteúdo sensível para algumas mulheres, por isso, sinalizamos esse texto com alertas de gatilhos, principalmente, de abuso sexual.

 Para começar, é preciso esclarecer um ponto crucial: afinal, o que é sexo? Diferente da visão falocêntria, o ato sexual vai além da penetração, como preliminares, masturbação, sexo oral e demais toques com tal intenção. Sendo assim, importunação sexual consiste na prática dos chamados “atos libidinosos” sem o consentimento da outra pessoa. As “passadas de mão” na rua, beijos roubados e masturbação sem contexto e consentimento são alguns exemplos.

O que é abuso sexual para a Não Era Amor?

O olhar da Não Era Amor para situações de abuso de modo geral é bastante rigoroso. Portanto, para nós, abuso sexual é tudo aquilo que vem depois do seu “não”. Ao contrário do que acontece em um relacionamento abusivo, o seu “não” deve ser respeitado em todos os aspectos de uma relação e, é claro, também quando o assunto é sexo, e isso significa que a sua vontade ou falta dela vale em QUALQUER momento, seja ele antes ou durante o ato. 

O sexo no relacionamento abusivo

Em muitos casos de relacionamento abusivo o sexo pode aparecer no ciclo da violência. Para que você entenda melhor, vamos lembrar das fases que o compõem e suas respectivas características quanto ao papel da relação sexual:

Fase de tensão e explosão

Essa fase é quando a mulher está pisando em ovos. Nela o abusador pode querer sexo e a vítima topar mesmo sem vontade, porque tem receio que uma briga esteja para acontecer. Então, a mulher cede e transa por medo, acreditando que o sexo o deixará mais tranquilo e não terá a briga. Mas independente disso, a explosão também pode acontecer, uma outra fase do abuso onde o sexo pode ser usado como “moeda de troca”: tem a briga, ele pode errar na mão, inclusive abusando sexualmente. 

Ah! E um alerta: a única pessoa que pode impedir a explosão, a violência e o abuso de acontecer, é quem abusa. 

Fase da Lua de Mel

Essa é a hora em que o sexo pode ficar mais intenso! Mas por trás disso, há outra intenção: manter poder e controle sobre a situação e nutrir a esperança da vítima. O sexo, inclusive,  pode aparecer, apenas nesse momento que é o que as mulheres chamam de “parte boa da relação”. Por isso, é importante responder à uma questão: já tentou tirar o sexo pra ver o que sobra? O que mais flui e é bom nessa relação? 


ALERTA DE GATILHO


Será que o que estou vivendo é abuso sexual?

Ele faz sexo com você enquanto você dorme? Você já foi acordada com ele te penetrando? Acorda suja de esperma porque toma algum medicamento forte ou então bebeu um pouco demais naquele dia e quando se deu conta ele tinha transado com você? Bom, é com muito pesar que temos que te informar: sim, isso é abuso sexual. Sexo sem consentimento é estupro e não há outra palavra que a gente possa utilizar para definir tais acontecimentos.

Estupro é o ato de obrigar outra pessoa, por meio de violência ou ameaça, a praticar qualquer tipo de ato sexual, seja com o próprio agressor, seja com um terceiro. O agressor pode ser qualquer pessoa, inclusive o namorado, marido ou companheiro da vítima (é o chamado estupro marital). Se a vítima tiver menos de 14 anos ou estiver dormindo, embriagada, dopada, for pessoa com deficiência, ou, por qualquer outro motivo, não tiver condições de resistir ao ato, o crime em questão é o estupro de vulnerável, que é punido com uma pena mais grave.

É importante ressaltar, mais uma vez, que também existe estupro dentro do casamento. De acordo com a lei Maria da Penha violência sexual se refere a – qualquer conduta que constranja a presenciar, a manter, ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força, que a induza comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de utilizar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, a gravidez, ao aborto, ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos.

Além da forma mais evidente, o estupro em si, existe uma coisa muito comum de acontecer: o abusador se queixar da falta de libido da mulher ou falta de interesse por ter relação com ele. Mas, pense com a gente, em um contexto extremamente abusivo, onde seu corpo sente que está em perigo, em alerta, você está confusa, culpada, cansada, como sentir desejo sexual? Impossível! Então dizer que você é frígida, que você não gosta de sexo, ameaçar procurar na rua por causa disso, se recusar a usar preservativo e tudo o mais que já falamos aqui, também é abuso sexual.


FIM DO GATILHO


Saúde sexual e Relacionamento abusivo

Você sabia que abusadores são potencialmente infiéis? E que é mais comum do que se imagina que mulheres em relacionamentos abusivos tenham algum tipo de IST (Infecção sexualmente transmissível)? 

Então, cuidado: não terceirize a sua saúde sexual! Não deixe esses cuidados na mão do outro. Nem sempre eles vão usar preservativo, pode ser que eles tentem te convencer de que isso é besteira, que haja reclamação inclusive pelo fato de você usar pílula ou querer colocar DIU. Ou seja, se ele quer ter controle sobre os seus métodos contraceptivos, tenha atenção redobrada! Tem grandes chances de essa não ser uma relação saudável porque não está existindo um respeito pelo seu corpo e pelas suas próprias vontades. 

Cultura Patriarcal e abuso

É impossível falar sobre abuso sexual sem se perguntar: por que essas coisas horríveis acontecem? A resposta está na cultura na qual estamos inseridos, onde a estrutura social impõe e valida a desigualdade de poderes entre homens e mulheres, isso é, uma cultura machista que afirma um comportamento sexual masculino aprendido na maioria das vezes através da indústria pornográfica.

A pornografia em nossa sociedade é a pedagogia afetiva e sexual da maioria dos homens. Na puberdade esses meninos iniciam sua sexualidade tendo a pornografia como uma referência de como ser homem no sexo, na cama, de como obter e “dar” prazer. Os modelos presentes nesses filmes pornográficos, trazem uma masculinidade violenta, um sexo com uso da força, do controle no qual o prazer e autonomia da mulher não têm voz e quando essa mulher tem “voz” é para exaltar o prazer a performance do homem e é isso que lhes é ensinado: que o importante é a performance e o prazer deles, num sexo com o outro, mas sem conexão, sem dualidade, no qual a mulher se encontra em uma posição de objeto.

Vale lembrar que nós da Não Era Amor não somos anti-sexo, somos contra pornografia da forma que é feita: violência, submissão feminina, falocêntrica, etc. É a pornografia que nos ensina que temos que ser performáticos – ter um ótimo desempenho – na cama, é a pornografia que não permite que as mulheres tenham voz no ato sexual. Ou seja, a indústria pornográfica é um desserviço quando a gente pensa em relação sexual com qualidade, com respeito, desejo feminino e com consentimento. 

Você não está sozinha!

Se você se identificou com esse conteúdo, saiba que não está sozinha e que a Não Era Amor existe para te acolher e trazer informação de qualidade para que você possa se orientar e se fortalecer. Conte com a gente!