Isso não é posse, é excesso de amor. Não é ciúme, é cuidado. Você é minha, eu falo para o seu bem. Ninguém nunca vai te amar como eu. Gostaria que você não encontrasse seus amigos para ficar comigo.
Alguma dessas frases soou comum para você? Então, antes de qualquer coisa, precisamos deixar claro que não, isso não é amor. É abuso, mais precisamente, um relacionamento abusivo. 

Vivemos em uma sociedade potencialmente abusiva, onde o abuso pode se manifestar das formas mais sutis como manipulação, controle, posse – tornando ainda mais difícil identificá-lo – até as mais claras, como ameaças e agressão física.

Será que estou em um relacionamento abusivo?

Um relacionamento abusivo vai além do abuso em si e inclui diversos fatores como o sofrimento causado em uma pessoa, a frequência dos abusos, ciclos de agressão e escalonamento da violência. 

Você está em um relacionamento abusivo quando o outro se torna o ponto principal da sua vida e o seu comportamento é moldado com referência ao que ele espera de você. Tal controle interfere em sua relação com a família, amigos, trabalho e, principalmente, na forma com que você se enxerga. 

Esse tipo de relacionamento segue alguns padrões e juntamente com eles há também sentimentos recorrentes como dúvidas, confusão mental, ansiedade, insegurança e esperança de que o parceiro mude e os abusos cessem. 

Todas essas características citadas acima indicam que você talvez esteja em uma relação tóxica, (Saiba se você está em um Relacionamento Abusivo) já que a dúvida e a insegurança sobre o que pensa, faz e sente são efeitos psicológicos consequentes do abuso. Além disso, existem outros traços inerentes ao relacionamento abusivo e neste texto vamos destacar cada um deles.

O que é abuso para Não Era Amor?

Em outras palavras, consideramos abuso quando causa ou visa causar danos à liberdade, individualidade, privacidade, identidade, intimidade, corpo, autoestima e desenvolvimento da pessoa.

O que é relacionamento abusivo para a Não Era Amor?

É quando a base do relacionamento é o abuso e há discrepância no poder de um em relação ao outro, ou seja, uma posição hierárquica de desigualdade. É uma relação onde existe violência/abuso verbal, emocional, psicológica, física, sexual, financeira e/ou tecnológica. (Conheça os diferentes Tipos de Abuso)

Normalmente, como há diferença de poder é comum perder o limiar do que é aceitável ou não em função das demandas de um outro que a tudo comanda.

Estágios de um relacionamento abusivo

Os relacionamentos abusivos não surgem do nada e mesmo que eles não se mostrem nitidamente violentos o abuso está presente desde o início, em padrões que se repetem em todos os casos. De acordo com Dina McMillan, psicóloga social americana, PHD pela Stanford University e especialista em violência doméstica há 20 anos um Relacionamento abusivo começa com os três T’s:

Too much (demais)

Tudo que acontece no relacionamento é em excesso, é demais. São elogios demais, presentes demais, vocês ficam juntos demais. Ele passa a ocupar todos os espaços da sua vida de uma hora pra outra e juntamente com o excesso de contato, há também muitas promessas e conversas sobre o futuro.

Too fast (muito rápido)

Muito rápido. Rapidamente ele a chama de namorada ou futura esposa, ou lhe diz: “Você é minha agora! ”.  Ele faz grandes planos para vocês dois mesmo que vocês ainda nem se conheçam direito.

Transformation (transformador)

Imediatamente, ele tenta mudar você. Sem você pedir, dá conselhos ou faz comentários sobre seus gostos, sua carreira, seus amigos e familiares, seu jeito de ser. Ele tenta te moldar, te transformar para que você encaixe nas expectativas do que ele julga ser um relacionamento e uma mulher ideal.

Nessa fase é preciso lembrar que não importa o que você faça para agradá-lo, o abuso continua mesmo que você mude constantemente o seu comportamento. 

Um relacionamento pode ou não se mostrar abusivo desde o início

Já sabemos que um relacionamento nem sempre revela o abuso desde o começo, mas ele está presente, mesmo que de forma quase invisível. 

Apesar da difícil percepção, alguns padrões podem ser observados, como a insistência do abusador para ficar com você, mesmo que até então você não apresente o menor sinal de vontade. Esse tipo de atitude é facilmente romantizada e o ato de insistir é confundido com “muito interesse”. Nesse caso, toda a fixação na verdade nada mais é do que o fato de que, desde o início, ele não respeita suas vontades e não aceita o seu não.

O abusador também quer tudo do jeito dele. Começando por escolhas simples do dia a dia até decisões sobre a sua vida. Primeiro, ele vai tentar mudar sua opinião quando discordar dele. A partir disso, os próximos passos são minar sua autoconfiança, te deixar insegura e, ao mesmo tempo, quando você se afastar, e tratar como alguém muito especial, criando ainda mais dependência emocional e a falsa sensação de que o relacionamento só tem partes boas. 

São diversos tipos de abuso, dos mais evidentes aos quase invisíveis, dos recorrentes aos que acontecem de forma subliminar. Mas o que há em comum entre eles? Um relacionamento abusivo geralmente se manifesta por meio de 4 passos.

Encantamento

O primeiro sinal é a sedução ou encantamento. Essa é uma fase de magia, onde tudo é perfeito, sem espaço para questionamentos e sem sinal de controle por parte do abusador. É usual ainda, que nesse início, a futura vítima do relacionamento abusivo pense que é ela quem tem as rédeas da relação.

Uma das características dessa fase é a perfeição, a paixão súbita, intensa, que ocorre antes mesmo de conhecer a fundo os valores, propósitos, o jeito e as atitudes da pessoa com quem está se envolvendo. 

A ideia nesse ponto é seduzir rapidamente, ganhar a confiança da vítima e intensificar o vínculo emocional para, a partir daí, conquistar o poder. Nessa fase é comum não perceber o que verdadeiramente está acontecendo, pois tudo parece um mar de rosas, sempre com muito contato e proximidade excessiva.

Toda essa intensidade não abre espaço para o pensamento crítico sobre o relacionamento, o que resulta em uma intimidade artificial.

Isolamento

Nesse ponto a vítima se isola de um ambiente social que potencialmente a ajudaria a sair desse ciclo. Essa manipulação pode vir como um pedido explícito para que a pessoa não faça determinada coisa, não saia com as amigas, diminua o contato com outras pessoas e também em forma de cuidado e zelo. A frase “agora você é minha” é um clássico utilizado para conseguir o isolamento da parceira. 

A consequência do controle e do afastamento social é a distância dos amigos, da família, mudança de emprego e também a auto-anulação da vítima que abre mão de fazer algo que gosta para agradar o abusador.

Introdução à violência

Após o isolamento social o relacionamento se torna uma fusão dos dois parceiros, é como se a vítima fosse a extensão do abusador.  Como já dissemos, nesse início é muito provável que a mulher não perceba a violência ou pense que com o tempo tudo irá mudar, que o controle é passageiro e que em breve terão mais confiança e liberdade.

A partir daí o abuso se torna mais claro, mais intenso e maior, com ainda mais manipulações, tensões, invasão de privacidade e atitudes autoritárias que normalmente aparecem como forma de proteção. Nesse ciclo, o abuso pode começar sutilmente como uma chantagem até se tornar violência física e ameaça, o que chamamos de escalonamento da violência. (Conheça o Ciclo da Violência)

 Término

O último passo é romper o elo com o abusador. 

Terminar um relacionamento abusivo é ainda mais difícil do que colocar fim em uma relação saudável. Isso ocorre porque há muitas variáveis que dificultam o término como medo da solidão, ameaças, violência física, perseguição, humilhação e difamação. 

Da mesma forma que um relacionamento saudável começa diferente do abusivo, ele também termina de outra forma, já que a base da relação é o abuso, a discrepância no poder, a hierarquia, violência e desigualdade.

Assim, falar não e contrariar o parceiro requer ainda mais força, pois significa quebrar com todos os padrões de violência que vêm acontecendo ao longo do relacionamento, seja a ela verbal, emocional, psicológica, física, sexual, financeira e/ou tecnológica.  

O término é o maior “não” que uma mulher diz para o seu parceiro em um relacionamento abusivo. Ele vai contra tudo que o abusador estava acostumado, como ter suas vontades realizadas e o poder em mãos. Assim, ele vai tomar atitudes drásticas e extremas para ter o controle de volta. 

Nessa fase, o abuso é sempre escalonado. É aqui que a violência psicológica tem ainda mais potencial para se transformar na primeira agressão física e até mesmo em feminicídio. 

O fim do relacionamento abusivo é como se fosse um grande resumo de tudo que aconteceu enquanto estiveram juntos, só que ainda mais intenso: explosão, lua de mel, manipulação, chantagem, tudo de uma vez.

É preciso lembrar que esse é um término não convencional e, portanto, não deve ser romantizado.

Como sair de um relacionamento abusivo

Agora que você já sabe como é o término de um relacionamento abusivo é preciso saber também como sair desse abuso.

Para a Não Era Amor a melhor ferramenta que temos é a informação, pois o conhecimento fortalece e protege as mulheres. Precisamos nos informar e aprender sobre o que é esse tipo de relacionamento, suas características, seus padrões e também como tudo isso se relaciona com o nosso próprio comportamento.

A autoconsciência é a chave para se libertar e perceber todas as variáveis: o que acontece dentro da relação, o que se sente, como funcionam as fases do relacionamento abusivo e também o ciclo da violência.

Para conseguir tudo isso, não tenha vergonha de pedir ajuda. Saia do isolamento e tenha uma rede de apoio de qualidade, sem julgamentos e pressões. Busque também terapia com psicólogas especializadas no tema para conseguir começar o seu processo de cura e fechar as frestas emocionais que te fizeram cair no abuso.

Com ajuda profissional você vai, aos poucos, tratar os danos psicológicos, aumentar sua autoconfiança e retomar a sua vida, sua identidade e a sua força.

Como ajudar minha amiga?

Se você tem uma amiga passando por isso, primeiramente, você precisa saber que as vítimas de relacionamentos abusivos têm a vida inteira atingida pelos abusos: o psicológico, o emocional, o físico e até o lado social. (Descubra como ajudar)

Elas sentem culpa, medo, vergonha, tristeza. Já pensou o que é ter sua autoconfiança destruída por alguém? Ou ter todas as suas decisões controladas? Em um relacionamento abusivo tudo o que você faz, fala, vive, a maneira como interage com outras pessoas, tudo, tudo é afetado. 

E para que o seu acolhimento seja eficaz você precisa entender que essa ajuda não é sobre você, é sobre ela, sobre o que ela passou e sentiu, sobre os seus traumas e frestas emocionais. Portanto, a sua amizade deve ser incondicional, paciente e calma.

É necessário entender o tempo que cada um precisa para conseguir sair do abuso. Algumas mulheres demoram anos para procurar ajuda, outras terminam e voltam por muitas vezes até o término final. 

Comece, então, mostrando seu apoio, pergunte o que a pessoa precisa, vá aos poucos tentando tirá-la do isolamento social. Um dia de cada vez, um passo após o outro.

Onde há silêncio, há violência. Use a informação para se libertar

Você sabia que a cada 3 mulheres uma vai sofrer ou já sofreu algum tipo de abuso?

A maior parte da violência doméstica pode ser evitada se evitarmos também o início dos relacionamentos abusivos. Mas como isso é feito? Os relacionamentos abusivos são abusivos desde o começo, o que falta é entender os sinais para detectá-lo. 

Precisamos falar de prevenção e não somente da reação. Relacionamentos com abuso não surgem do nada, existem estratégias usadas para que o abusador consiga manipular e controlar até ter o que quer, assim como há padrões que se repetem em cada uma dessas táticas.  

A Não Era Amor acredita que informação é liberdade e, por isso, quer falar, acolher e informar o caminho mais seguro para um número cada vez maior de mulheres.