A autocompaixão como fator protetor de relacionamentos abusivos

Já parou pra pensar que cuidar de si também é dar limites? Vivemos em uma sociedade na qual as mulheres são extremamente cobradas e ensinadas desde a infância a terem excessiva responsabilidade. Ter que lidar com isso, além de gerar culpa também resulta em uma pressão social e interna para corresponder a todas essas expectativas impostas.

Diante disso, há uma prática constante para diminuir esses danos: a autocompaixão. E sabe por que falamos em constância? Porque a nossa sociedade se alimenta da baixa autoestima. Toda lógica do consumo se beneficia disso e até a construção de identidade reforça essa cobrança, já que fomos feitas para alcançar um padrão pré-definido, o que nos faz achar que há sempre algo de errado com quem somos no momento. Isso ocorre em diversos recortes sociais, no contexto de gênero, de orientação sexual, no trabalho, na imagem do corpo.

Mas o que é a autocompaixão?

Autocompaixão é um termo criado por Kristin Neff, psicóloga, professora e pesquisadora que tinha em seu ramo de atuação trabalhos sobre a autoestima e autocrítica. Em meio aos seus estudos, Kristin encontrou no Budismo as práticas de meditação e começou a direcioná-las para mediações autocompassivas.

Nesse universo de possibilidades, a pesquisadora descobriu que poderia se tratar de forma mais gentil e observou os impactos positivos que aconteciam em sua vida quando ela praticava a gentileza consigo mesma.

A partir dessa experiência, surgiu a ideia de autocompaixão, conceito que hoje é visto como um dos fatores mais ligados à saúde mental, ou seja, pessoas mais saudáveis mentalmente são as mais gentis e tolerantes com si mesmas em acontecimentos críticos. Portanto, autocompaixão é exatamente a forma como você se trata em momentos difíceis, é sobre se conectar com seus valores mais profundos e estar alinhada com o que faz sentido para sua vida.

Autocompaixão e relacionamentos abusivos

A autocompaixão é a última etapa da metodologia da Não Era Amor e é usada como forma de ajudar quem está ou já esteve em relacionamentos abusivos. Isso porque falar em autocompaixão é também evidenciar nossos direitos básicos enquanto seres humanos, direitos que muitas vezes são feridos quando passamos por algum tipo de abuso.

Diante desse contexto, há cobranças sociais que colocam as mulheres em uma posição ainda maior de dever e cuidados, reforçando o estereótipo de que devemos colocar as necessidades dos outros em primeiro lugar, reprimir a raiva, não dar limites. Nessa educação baseada no dever e na cobrança que é, justamente o oposto da autocompaixão, nos desconectamos dos nossos direitos básicos, como o de ser respeitada, de errar, de comunicar, de impor.

Em um relacionamento abusivo é como se o homem tivesse mais direto que a mulher, pois há uma relação hierárquica de poder, desrespeitos cotidianos e não validação de nossas emoções. Enquanto a autocompaixão está diretamente ligada à ação de validar e se conectar com o que sente, o abuso faz com que a mulher perca o limiar do que é aceitável ou não e se mantenha no sofrimento.

Diferente do que muitos podem pensar, autocompaixão não é egoísmo. Pelo contrário, quando você cuida de si e tem relações benéficas e de acordo com seus princípios, você tem mais para oferecer as pessoas ao seu redor. Já as mulheres que são vítimas de abuso, por mais sutil que ele seja, estão gastando energias, tempo, espaço, emoção e até dinheiro na relação.

A autocompaixão protege, mas não previne 

Relacionamentos abusivos não são problemas individuais ou psicológicos e, sim, sociais. Então, o que previne que abusos continuem a acontecer é um processo diário de lutar contra o machismo e a favor da igualdade de gênero e de uma educação mais igualitária para crianças. A informação também pode ser libertadora, entender como é construído esse tipo de relação, conhecer os sinais, tudo isso pode ajudar, mas não previne, pois o abuso ainda assim pode acontecer de forma refinada e imperceptível.

A autocompaixão protege as mulheres que entram na estatística de relacionamentos abusivos. Ela ensina a ouvir e validar os sentimentos, lidar com a culpa, se acolher e se respeitar. Quando se tem clareza do que é importante em uma relação, é mais fácil só permanecer onde faz sentido de acordo com seus valores e crenças. Isso também significa pedir ajuda para quem realmente te acolhe e não para quem usa da sua vulnerabilidade para refinar a forma de abusar.

Outro efeito da autocompaixão é ensinar as mulheres a lidarem com os efeitos do abuso, fazendo com que as consequências sejam menos devastadoras em termos psicológicos. Também auxilia para que a mulher se perdoe por ter entrado na relação e lide melhor com o medo de novos relacionamentos.

A autocompaixão é um processo individual, mas o comportamento de uma mulher tem impacto no comportamento de outras. E esse sim, é um fenômeno social. Informação é liberdade. Autocompaixão também.