Você sabe o que pode acontecer com você quando está em um relacionamento abusivo?

Muito se discute sobre os impactos físicos que uma relação violenta pode causar: agressões, ameaças, feminicídio. Só que para além dos danos palpáveis e socialmente reconhecidos, estar em um relacionamento abusivo pode trazer sequelas às mulheres também no âmbito psicológico, social e até em sua saúde como um todo.

Neste texto, abordaremos quais são essas principais consequências, mas antes, precisamos frisar que o abuso não é um ato singular, não acontece de maneira isolada, assim como não atinge apenas uma mulher. A ideia da Não Era Amor é pluralizar esse discurso para que a informação chegue a cada vez mais mulheres e as mais diversas esferas da sociedade, pois um relacionamento abusivo viola direitos básicos e constitucionais como, por exemplo, à liberdade. Portanto, é um assunto que vai além da esfera social e subjetiva.

Falar sobre abuso é uma questão política, jurídica, psicológica e de saúde pública. 

O relacionamento abusivo e suas consequências

A repercussão do abuso na vida das mulheres, em todos os âmbitos e esferas, não somem quando o relacionamento se encerra. Essas consequências estão presentes desde o início da relação e perduram por algum tempo após o seu término. Vamos a algumas delas:

Isolamento Social

Um dos efeitos mais evidentes, o isolamento social é também o segundo estágio da construção de um relacionamento abusivo. Ele pode acontecer de forma clara, com proibições e críticas às amizades e familiares da mulher ou de maneira velada, com comentários maldosos sobre sua rede de apoio, mudança de casa ou cidade para um lugar mais longe de pessoas próximas e até mesmo a vítima pode se isolar por conta própria com base nos comentários e manipulações ou por vergonha das atitudes do abusador.

O grande risco desse isolamento é que, com ele, perde-se também o convívio e conexão com pessoas que potencialmente poderiam tirar essa mulher do abuso. Sendo assim, ela não tem com quem conversar sobre o que está passando e não pode ser validada socialmente, o que a deixa mais fraca, confusa e com medo de pôr um fim na violência. Saiba mais sobre como sua rede de apoio pode te salvar do abuso clicando aqui.

Efeitos psicológicos do abuso

São diversos os efeitos psicológicos causados pelo abuso. Pode ser que você se reconheça em em vários deles, e uma coisa a gente afirma: toda mulher que está em um relacionamento abusivo irá se identificar com pelo menos um. Pensando nisso, vamos destacar os dois principais: a culpa e a confusão mental.  

A culpa vem sempre colada ao abuso. Isso porque se ela não existisse, dificilmente a violência iria se repetir. Esse fenômeno psicológico pode ser percebido quando a mulher sente-se responsável pela forma como o seu parceiro age. Frases como “Ele fez isso porque eu provoquei”, “Eu também sou abusiva”, “Se eu mudar meu jeito, ele também vai mudar o dele”, são exemplos de como a culpa pode se manifestar na relação. Mas é importante lembrar que a violência independe do que você faça, e se sentir culpada acontecerá seja qual for sua atitude. 

Já a confusão mental, vem como uma estratégia do abusador para manipular e tem a função de te confundir para que você perca o limiar do que é ou não aceitável em uma relação e, portanto, permaneça nela por mais tempo. Se você quiser tirar a prova se o seu parceiro é ou não é abusivo, pense na seguinte frase: mulheres que estão em relacionamentos saudáveis não estão confusas se é abusivo ou não. Já as mulheres que estão em relacionamentos abusivos, estão todas confusas.

Diminuição da autoestima e perda de identidade

Pense na seguinte situação: no relacionamento abusivo você tem uma pessoa controlando seus desejos, suas ideias, suas ações, direcionando seu pensamento, criticando suas atitudes. Tudo isso faz com que a sua autoestima e confiança em si mesma sejam minadas. No decorrer da relação, você já nem se lembra mais quem era ou o que genuinamente gostava e é essa perda de identidade um dos dificultadores para que você consiga sair do abuso e retomar o controle da sua vida.

Impacto na carreira, estudos e vida financeira

Já parou pra pensar quanto do seu tempo você direciona para o seu relacionamento? Quando existe abuso, toda a sua saúde mental e energia são direcionadas para lidar com os momentos de tensão e as demais fases do ciclo da violência. Assim, sobra pouco de você para investir no seu trabalho e crescimento profissional, o que diminui sua produtividade, desempenho, foco e concentração. 

As mulheres em relacionamentos abusivos possuem salário cerca de 10% menor do que aquelas que não sofreram violência, segundo pesquisa do Instituto Maria da Penha em parceria com Universidade Federal do Ceará, realizada em 2016. Esse cenário assustador, pode ser ainda pior quando a vítima não possui autonomia financeira ou renda própria, abrindo mais margem para que o parceiro use do dinheiro para continuar mantendo-a no abuso. 

Impactos a longo prazo

Como mencionamos acima, algumas consequências vão ser sentidas após o término e têm efeitos a longo prazo, impactando na saúde mental e física da mulher. Pesquisas apontam que o excesso de hormônios de estresse e adrenalina descarregados constantemente no corpo, quando se passa por situações de violência, deixam o organismo mais inflamado e com possibilidade de desenvolver doenças graves. 

Os dados são assustadores e contemplam estatísticas angustiantes: mais de 51% de mulheres em relacionamento abusivo vão adquirir diabetes do tipo 2 e terão um aumento de 35% de chance de doenças cardiovasculares. Além disso, essas vítimas têm 44% de chance a mais de morrer por qualquer causa se comparada a outras mulheres, sem contar aquelas que são efetivamente mortas por feminicídio.

Transmissão geracional

O relacionamento abusivo também interfere diretamente nos filhos, pois abuso e família são conceitos totalmente opostos e que jamais devem andar juntos. Não à toa, abusadores geralmente se revelam péssimos pais, devido às suas características incompatíveis com a boa forma de exercer a paternidade.

Abuso gera mais abuso. Existe uma transmissão geracional nos relacionamentos abusivos que interfere nas próximas gerações: filhas de casais em relações violentas, quando também entram em relacionamentos abusivos, demoram mais para perceber e conseguir sair. Em contraponto, os filhos homens têm 4 vezes mais chances de se tornarem abusadores. Isso significa que libertar nossas mulheres agora é também liberar outras mulheres no futuro. 

Trauma

O trauma psicológico é também uma consequência do abuso. Conhecido como TEPT – Transtorno de estresse pós-traumático, ele afeta o cérebro e o corpo, prejudicando a vida da mulher, em todos os âmbitos. 

Isso acontece porque a dinâmica do cérebro é modificada pelo abuso, fazendo com que os neurônios mudem a forma de se comunicar uns com os outros ou até mesmo morram. Tal exposição prolongada a situações de estresse, numa intensidade de estímulos que o cérebro não consegue processar adequadamente, acarreta sintomas incapacitantes que podem impedir a mulher de trabalhar, se relacionar, dormir adequadamente e até se alimentar. Saiba mais sobre os efeitos neurobiológicos do relacionamento abusivo clicando aqui.

Como me proteger das consequências do relacionamento abusivo?

Existem alguns fatores protetivos que podem minimizar as consequências do abuso. Mas antes de mencionarmos cada um deles, precisamos reforçar que proteger não é o mesmo que evitar, pois relacionamentos abusivos são problemas sociais, tendo a única forma de prevenção na luta diária contra o machismo e a favor da igualdade de gênero. 

Sendo assim, a proteção às nossas mulheres pode acontecer, primeiramente, com a informação sobre o tema, o entendimento sobre os sinais e padrões de uma relação abusiva, terapia especializada para diminuir os efeitos psicológicos e fortalecer a vítima para pôr fim na violência, autocompaixão para se perdoar e se libertar e uma rede de apoio para acolher.

A Não Era Amor tem um recado pra você!

Se você chegou até aqui e se reconheceu em algum tópico desse texto ou identificou que alguém que você ama está passando por isso: ajude, se informe, liberte. 

O nosso pedido é para que você jamais desista da sua amiga e nem desista de si mesma. Conte com a gente nesse processo!


Redação: Thay Tanure, Redatora da Não Era Amor
Conteúdo e revisão: Pollyanna Abreu, Psicóloga e Fundadora da Não Era Amor